Há muito tempo, sim, não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelhecí: olha em relevo
estes sinais em mim, não das carícias
(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que a sol-posto
perde a sabedoria das crianças.
A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe”, e a noite abria em sonho.
É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.
Carlos Drummond de Andrade
03 Janeiro 2010
28 Dezembro 2009
Aprendizagens
Variadas razões — boas e más —, para além do insanável desgosto pelo objecto, têm feito com que há muito não ligue a televisão.
Hoje foi excepção. Não sei se a abençoe ou maldiga.
Apareceu um apessoado Dr. — Duarte Santos, se bem vi ou lembro —, autor de uma maravilhosa (é de certeza, que não procurarei confirmar ou infirmar em algum momento da minha vida [sempre na consabida presunção, ou desejo, de que Deus me dê juízo até à hora da morte]) obra sobre o casamento de homossexuais.
Para além de dar como evidências aquisições culturais que levaram séculos a verificar-se, o senhor respondeu à questão de saber se a lei que virá permitir este casamento não faz cair um obstáculo à felicidade de muitas pessoas, que o Estado não pode dar tudo o que as pessoas desejam, como habitação, emprego, dinheiro e outros bens. Não lhe ocorreu, tanto quanto pude apreciar, que uma coisa é o Estado dar às pessoas coisas que elas querem e outra é obstar a que elas as tenham. Aliás, "pode ser possível" não sei o quê, nas palavras do garboso autor. Cá para mim, é certo que, além de reaccionário (no que não é nada original) e presunçoso, tem dificuldades com o raciocínio e com o português.
Mas, do que ouvi — que não foi tudo, que não tenho saúde nem idade para tanto —, a maior aprendizagem foi que "a Holanda é o país dos fundamentalismos". Bendisse — de novo e caseiramente — já não haver republicanos na Casa Branca, pois esta revelação teria consequências dramáticas.
Hoje foi excepção. Não sei se a abençoe ou maldiga.
Apareceu um apessoado Dr. — Duarte Santos, se bem vi ou lembro —, autor de uma maravilhosa (é de certeza, que não procurarei confirmar ou infirmar em algum momento da minha vida [sempre na consabida presunção, ou desejo, de que Deus me dê juízo até à hora da morte]) obra sobre o casamento de homossexuais.
Para além de dar como evidências aquisições culturais que levaram séculos a verificar-se, o senhor respondeu à questão de saber se a lei que virá permitir este casamento não faz cair um obstáculo à felicidade de muitas pessoas, que o Estado não pode dar tudo o que as pessoas desejam, como habitação, emprego, dinheiro e outros bens. Não lhe ocorreu, tanto quanto pude apreciar, que uma coisa é o Estado dar às pessoas coisas que elas querem e outra é obstar a que elas as tenham. Aliás, "pode ser possível" não sei o quê, nas palavras do garboso autor. Cá para mim, é certo que, além de reaccionário (no que não é nada original) e presunçoso, tem dificuldades com o raciocínio e com o português.
Mas, do que ouvi — que não foi tudo, que não tenho saúde nem idade para tanto —, a maior aprendizagem foi que "a Holanda é o país dos fundamentalismos". Bendisse — de novo e caseiramente — já não haver republicanos na Casa Branca, pois esta revelação teria consequências dramáticas.
26 Dezembro 2009
Trapos
Agora que o Natal já terminou, espero que saiam dos prédios uns trapos vermelhos com um anjinho papudo que me explicaram pretender ser o menino jesus. Além de tão foleiros quanto os pais natal a trepar por janelas e varandas — que visavam contestar —, são pavorosos.
A neta chamou-me a atenção para a sua distribuição na cidade: os bairros finos têm-nos muito mais abundantes; isto, evidentemente, porque gente fina tem bom gosto.
A neta chamou-me a atenção para a sua distribuição na cidade: os bairros finos têm-nos muito mais abundantes; isto, evidentemente, porque gente fina tem bom gosto.
13 Dezembro 2009
O século a que pertenço
Raras leituras me dão tanto prazer quanto as de Camilo e de Machado de Assis: além de me divertir, o que é raro, creio sempre, quando os leio, que ninguém escreveu tão bem em português.
Escritores do século XIX para leitora de tempo errado.
Escritores do século XIX para leitora de tempo errado.
11 Dezembro 2009
Linguajares
Segundo qualquer pobre jovem empregado em call center, não se recebe, recepciona-se.
Segundo um lente de Coimbra, não se faz um tratamento exaustivo, mas exauriente; também nada se liga, antes tudo se conexiona.
No dizer de uma secretária que se preze, não se marca nada, agenda-se tudo; e, depois, deixam-nos saber para quando.
Segundo um lente de Coimbra, não se faz um tratamento exaustivo, mas exauriente; também nada se liga, antes tudo se conexiona.
No dizer de uma secretária que se preze, não se marca nada, agenda-se tudo; e, depois, deixam-nos saber para quando.
06 Dezembro 2009
Concidadãos
À porta do hospital, um jovem, que só se livrava do ar miserável pelo pindérico uniforme, dizia para outro (amigo de passagem, se bem percebi enquanto esperava um táxi): "Racista não sou, mas não gosto de pretos". Tive uma passageira tentação de lhe pregar uma lição, mas o rictus imbecil do vigilante — e declarante — livrou-me dela.
E dei comigo a pensar, como frequentemente: este "vigilante" está muito bem representado pelo Presidente da Repúblico e tem um Governo a condizer.
Eu, que fiz para merecer isto?
Não fiz o que deveria ter feito há anos: safar-me desta cidadania.
E dei comigo a pensar, como frequentemente: este "vigilante" está muito bem representado pelo Presidente da Repúblico e tem um Governo a condizer.
Eu, que fiz para merecer isto?
Não fiz o que deveria ter feito há anos: safar-me desta cidadania.
Teatro
Podemos imaginar que hão-de morrer aqueles de quem gostamos; até podemos imaginar a dor da sua perda. Nunca imginamos nada do que realmente sentiremos.
Podemos ter memória de como a Eunice Muñoz foi uma grande actriz, como podemos pensar que já não o é; ver como não é, isso não imaginamos: vemos.
Podemos ter memória de como a Eunice Muñoz foi uma grande actriz, como podemos pensar que já não o é; ver como não é, isso não imaginamos: vemos.
30 Novembro 2009
Condenados pelo nascimento
Trabalhava tranquilamente quando, passando os olhos pelo chão, vi uma bicheza preta, rica em patas, a deslocar-se devagar. Reacção: matá-la, na qualidade de barata que lhe imputei. Felizmente, a criatura despachou-se para debaixo de um móvel, assim frustrando os meus instintos assassinos.
Hoje, pela manhã, estando a minha senhoria em breve conversa comigo, ao trazer-me o jornal, ouvi-a exclamar: "olha um grilo!". Olhei: de facto, não era bem barata, mas um pouco diferente. A minha longa experiência do campo não me ensinou nada sobre grilos e, embora creia que tive na casa citadina um pobre destes numa estreitíssima gaiola quando era muito pequena, não fiquei com treino para a distinção a olho apressado. Questionada sobre o destino a dar ao dito, opinei que fosse posto no quintal, lugar que me pareceu mais apropriado a dar-lhe felicidade do que a casinha em que vivo (quando posso). Assim foi feito.
Fiquei a pensar em quantos humanos, por parecerem quem não são, são liquidados. Como aconteceu em Londres com um cidadão com aparência (para polícias) de árabe; e ser árabe é condenação a execução sumária em países ralados com a sua segurança contra terroristas, já que é destes sinónimo.
Não me orgulho da minha reacção ao grilo e também não à imaginada barata.
Hoje, pela manhã, estando a minha senhoria em breve conversa comigo, ao trazer-me o jornal, ouvi-a exclamar: "olha um grilo!". Olhei: de facto, não era bem barata, mas um pouco diferente. A minha longa experiência do campo não me ensinou nada sobre grilos e, embora creia que tive na casa citadina um pobre destes numa estreitíssima gaiola quando era muito pequena, não fiquei com treino para a distinção a olho apressado. Questionada sobre o destino a dar ao dito, opinei que fosse posto no quintal, lugar que me pareceu mais apropriado a dar-lhe felicidade do que a casinha em que vivo (quando posso). Assim foi feito.
Fiquei a pensar em quantos humanos, por parecerem quem não são, são liquidados. Como aconteceu em Londres com um cidadão com aparência (para polícias) de árabe; e ser árabe é condenação a execução sumária em países ralados com a sua segurança contra terroristas, já que é destes sinónimo.
Não me orgulho da minha reacção ao grilo e também não à imaginada barata.
21 Novembro 2009
Cidade inventada
Não tinha grande curiosidade: uma cidade feita no nada e sobre o nada não me cheirava a grande coisa.
Mas era lá que tinha de ir e, por isso, lá fui.
É verdade que, na zona mais central, se sente que não há vida para além do trabalho, dos serviços e dos negócios; também o é que a cidade é mais programada (ministérios aqui, bancos ali, zonas comerciais concentradas disciplinadamente, etc.) do que aquilo a que estamos habituados e isso não é muito agradável.
Porém, a arquitectura tem verdadeiros achados de beleza (aparte os ministérios, que parecem prédios de renda económica, a que os aparelhinhos de ar condicionado pendurados no exterior também não ajudam), os prédios tem uma altura máxima de 24 andares (o que tranquiliza a vista e, a quem tiver vertigens, mais do que isso), há verde por todo o lado e a terra é de um ocre intenso lindíssimo.
Não fiquei freguesa, mas, se for o caso, voltarei, até porque não vi a catedral que estava em obras.
Se fosse turista conscenciosa, teria levado máquina fotográfica e agora ilustrava a conversa. Mas não sou e é tarde para mudar, sobretudo quando não me apetece (o que é o caso).
Mas era lá que tinha de ir e, por isso, lá fui.
É verdade que, na zona mais central, se sente que não há vida para além do trabalho, dos serviços e dos negócios; também o é que a cidade é mais programada (ministérios aqui, bancos ali, zonas comerciais concentradas disciplinadamente, etc.) do que aquilo a que estamos habituados e isso não é muito agradável.
Porém, a arquitectura tem verdadeiros achados de beleza (aparte os ministérios, que parecem prédios de renda económica, a que os aparelhinhos de ar condicionado pendurados no exterior também não ajudam), os prédios tem uma altura máxima de 24 andares (o que tranquiliza a vista e, a quem tiver vertigens, mais do que isso), há verde por todo o lado e a terra é de um ocre intenso lindíssimo.
Não fiquei freguesa, mas, se for o caso, voltarei, até porque não vi a catedral que estava em obras.
Se fosse turista conscenciosa, teria levado máquina fotográfica e agora ilustrava a conversa. Mas não sou e é tarde para mudar, sobretudo quando não me apetece (o que é o caso).
12 Novembro 2009
De partida
Não tem dado para mais. Infelizmente.
Como a internacionalização não me correu mal há um ano e tal, decidi repetir; ou melhor, os simpáticos senhores brasileiros é que o decidiram, convidando-me de novo.
Espero que, regressada, a vida esteja mais fácil do que tem sido.
Como a internacionalização não me correu mal há um ano e tal, decidi repetir; ou melhor, os simpáticos senhores brasileiros é que o decidiram, convidando-me de novo.
Espero que, regressada, a vida esteja mais fácil do que tem sido.
08 Novembro 2009
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