De dentro do exterior

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23 Julho 2008

Sentido da vida

Ignoro totalmente qual seja.
A leitura do livro de Drauzio Varella acrescentou perplexidade à ignorância.
Saber que, enquanto estamos ocupadíssimos e raladíssimos com minudências, pode cair-nos a notícia de um cancro cerebral muito agressivo e incomum, como acabou de suceder com uma jovem de quem muito gosto e que conheço desde que nasceu, soma sofrimento ao que já existia.
Talvez procurar viver bem no entretanto seja uma resposta.

20 Julho 2008

Ortografias

Em consequência de decisão esforçada — que interiormente qualifiquei de sábia —, dei comigo em acontecimento social.
Não estava tout le monde, mas estava bastante, demasiado para meu gosto.
Ultrapassadas as intimidades com pessoas que juraria nunca ter visto, as distâncias com quem conheço o suficiente para indesejar aproximações, feitas as conversas vácuas e de circunstância e, até, duas agradáveis, fiquei, como sempre me acontece, a olhar para tão ocupadas pessoas, a tratar das suas vidas já agora. É também por isso e para isso que estes convívios existem. Como a minha vida, precisando de tratamento, por certo nunca beneficiará deste, por irremediável incompetência da dona dela, tratei de procurar ocupação compatível com a situação.
Que encontrei em livro (dos vários existentes na sala), chamado "Por um fio". O autor é brasileiro, do que só me apercebi quando comecei a leitura. Fez-me confusão a ortografia, portuguesíssima.
Lembrei-me de que, há poucos dias, o MML, com quem conversei com grande prazer e proveito como de costume, me dissera que os livros portugueses no Brasil são adaptados ortograficamente ao brasileiro, o que nunca poderia imaginar e não verifiquei, já por isso,  já porque os autores portugueses, que vi nas livrarias brasileiras em que estive, eram daqueles que nunca leria em parte alguma do mundo.
Olhando o livro (objecto) que estava a ler, confirmei tratar-se de edição portuguesa: "Palavra" se chama a editora (palavra!). Que, pelos vistos, se sentiu no dever de carinhosamente alterar o texto para que nós, portugueses, conseguíssemos lê-lo.
Li os clássicos brasileiros em edições portuguesas, mas na sua língua, e não sou capaz de imaginá-los noutra.
Fica-me de emenda: nunca comprarei literatura brasileira editada em Portugal. O que, aliás, é fácil, porque ignoramos os contemporâneos e, qual Cabral, só chegando ao Brasil podemos descobri-los.

17 Julho 2008

Rotina

No fim de conversa com amiga de há mais anos do que qualquer das duas tem, disse incidentalmente que iria ao médico. Ao que fui perguntada se se tratava de visita de rotina.
Irreflectidamente, respondi que sim.
Ora, nada menos rotineiro em mim do que frequentar médicos e fazer exames (tenho sempre o alibi do medo de chumbar neles, já que nos outros pouco me preocupa a hipótese do chumbo).
Não faz parte das minhas rotinas zelar pela saúde — que, aliás, julgo que por isso, está bem —, preocupar-me com hipotéticas doenças ou cuidar especialmente desses aspectos. Acho que a vida é suficientemente chata para me dar ao trabalho de agravar a situação tratando burocraticamente dela.
Assim como assim, mais vale viver do que estragar os pequenos prazeres — e, às vezes, os grandes — com a obsessão de prolongar a maçada da vida sem prazer e ir andando.
Nada que tanto aborreça (exagero óbvio e próprio da declarante) como quem vai andando.

15 Julho 2008

Fraco pretexto

É o que é: pretexto não muito inspirado para partilhar com quem, ignorante como eu — mesmo que sejam pouquíssimos ou, até, ninguém —, desconheça este belo escritor brasileiro.

Fontes murmurantes

Nãose trata de uma referência às fontes murmurantes cantadas por Ary Barroso em sua "Aquarela do Brasil"। As fontes em questão são outras, estão atualmente em debate nos meios jornalísticos e legais: o direito de proteger o sigilo das "fontes"।
Contrariando a maioria, diria até a unanimidade dos colegas de ofício, sou contra este tipo de sigilo e, sobretudo, contra as fontes em causa. Tenho alguns anos de estrada, mais do que pretendia e merecia, e em minha vida profissional nunca levei em consideração qualquer tipo de informação que não fosse assumida pelo informante.
Evidente que fui mais furado do que um ralador de coco. Mas não fiz minha carreira no jornalismo na base de furos, que nunca os dei e nunca os levei a sério, uma vez que a maioria dos furos são, por natureza, furados.
O sigilo da fontes beneficia as fontes, e não o jornalista, que geralmente é manipulado na medida em que aceita e divulga as informações obtidas com a garantia do próprio sigilo. São fontes realmente murmurantes, que transmitem os murmúrios, as especulações e as jogadas inconfessáveis dos interessados, que são os próprios informantes.
Digo "inconfessáveis" por um motivo óbvio: se fossem confessáveis, as fontes não pediriam sigilo, confessariam o que sabem ou supõem, assumindo a responsabilidade pela informação.
Os defensores do sigilo das fontes se justificam com o dever de informar a sociedade, como se esse dever fosse a tábua da lei, o mandamento supremo acima de qualquer outro mandamento ou lei. No fundo, aquela velha máxima de que o fim justifica os meios, pedra angular em que se baseou a Inquisição medieval e todos os movimentos totalitários que desgraçaram a humanidade.

Carlos Heitor Cony

14 Julho 2008

Civilização

Chegada à terra (não lhe chamo berço, não, por razões estéticas) da democracia, dos direitos humanos, as notícias não espantam, mas revoltam.
Estamos na magnífica Europa que viveu a emigrar durante décadas. 
Chega a Espanha (ilha La Gomera, uma das Canárias) uma embarcação com "uma massa de corpos semi-inconscientes, colados uns aos outros, impedindo de distinguir os mortos dos sobreviventes" (El País, 12 de Julho). Lançados ao mar foram, enquanto os vivos tiveram forças para o fazer, os cadáveres dos que foram morrendo pelo caminho.
Os sobreviventes, que sobreviverem, serão sem papéis, detidos em centros destinados a que esperem pela remessa à procedência, isto é, à expatriação para os países de origem.
Viva a civilização; preferia viver na barbárie.

08 Julho 2008

De volta

Infelizmente deu tudo certo. Regressei, pois.
A pátria apareceu logo num televisor do aeroporto, enquanto esperava pela bagagem, na pessoa de um Madaíl a fazer declarações soleníssimas sobre um problema futebolístico decisivo para a humanidade.
E continuou a manifestar-se, em várias versões e personagens mais ou menos da mesma estatura, ocupados com temas semelhantemente soberbos.
Tenho alma de emigrante, como já sabia há muitos anos: longe, ignora-se tudo sobre este país, e o que se sabe daquele em que se está é-me quase irrelevante, pois não é nada comigo (nem sequer sou concidadã dos indígenas, tranquilidade suprema). Daí que as eleições para a Prefeitura do Rio de Janeiro me tenham parecido curiosas, lamentáveis em alguns aspectos, mas alheias. Ou o furor de um desafio de futebol entre o Fluminense e não-sei-quem — que durou mais de uma hora —, deplorável, mas lá com eles.
Voltei para ficar. Para meu mal.

06 Julho 2008

As últimas

Esta contaram-me, como se verdadeira fosse: eu acreditei.
O Chico ia a passear em Ipanema, no seu jeito tímido de olhos no chão. Um tipo que passou e o reconheceu, dirigiu-se-lhe e disse: "Logo vou no seu show". Ao que - isto é daquelas que devem acontecer muito a celebridades (o que, entre outros motivos, sempre me fez pensar que ser celebridade é condenação ao inferno) e para que não há resposta - o interpelado respondeu: "Vou caprichar".
Nem prezo por aí além a personagem, mas fiquei a apreciar mais.
A segunda aconteceu comigo hoje de tarde. Estava sentada num barzinho no calçadão de Copacabana a ler; aproximou-se um garoto que me pediu dinheiro. Disse que não. Pediu então um biscoito, ao que disse que sim, tendo avisado o senhor do bar de que pagaria. O pedido foi reformulado não percebi para quê; continuei a dizer que sim. Daí a pouco aproximaram-se mais dois pirralhos que vieram transmitir o agradecimento do primeiro, ocupadíssimo com uma enorme sanduíche de qualquer coisa, e pediram igual. Disse que sim, o que pareceu deixá-los contentes. Ao pagar, perguntei ao dono (ou lá o que era) do bar se teriam fome os miúdos. Claro, respondeu-me, com toda a naturalidade; "andavam a apanhar cocos no lixo" para comer.
Tem dessas coisas.

Brasil ainda

É a primeira vez que venho ao Brasil para estar sobretudo com brasileiros.
O que se aprende: os sotaques são diferentes de Estado para Estado, as pessoas (maioritariamente) também, as rivalidades entre Estados são acentuadíssimas. Claro que sabia que este país é tão grande quanto um continente; mas, tola como sou, não tinha percebido que, para eles, faz toda a diferença ser de Pernambuco, de Minas, do Rio ou do Nordeste.
As dicas sobre autores contemporâneos têm-se revelado excelentes. Apetece-me levar mais ums toneladas de livros para ler; e talvez leve, que, mais uma vez, tiveram a gentileza de se proporem enviar-me os que não puder carregar.
Vou tratar disso, antes que chegue a hora de ir para o aeroporto secar à espera do voo.

05 Julho 2008

Citação

Vocês já ouviram dizer por aí que o lugar da mulher é no fogão. Também já ouviram dizer que o lugar da mulher não é no fogão. Que diabo, onde é afinal o lugar da mulher? Antes de mais nada, o lugar da mulher, como o do homem, é na vida. E vida é uma porção de coisas. Ninguém é melhor do que ninguém porque faz isso ou aquilo. O importante é fazer bem o que se faz, ter prazer naquilo que se faz.

Carlos Heitor Cony

04 Julho 2008

Andanças

O sentido é o literal.
Tenho andado, desde que estou aqui, como nunca na vida (a companhia ajuda). Até descobri para que servem as meias, que sempre me pareceram peças chatas e só indispensáveis para o frio, nada mais; ao fim de dia e meio, doíam-me as solas dos pés como se estivessem queimadas; a solução foram meias.
Todas as caminhadas têm lugar nos intervalos de actividades académicas extraordinárias, com professores e alunos de pós-graduação a falarem-me de textos que publiquei como se fossem do mais interessante que há, o que me deixa estarrecida, porque nem eu sei o que escrevi.
Hoje deu-me um quebranto e decidi não continuar a andar. Fui até à Av. Atlântica, trepei (que é isso? estou a escrever em português, nada de pensamentos desses) ao último andar de um hotel, fiquei a ler, a olhar a paisagem e comi umas torradas com chá. Assim acabei o livro do Moacyr Scliar que tinha começado há vários dias (e nem é grande, mas o tempo não dá para tudo quanto é bom). Foi uma bela descoberta o autor (claro que toda a gente o conhece, mas eu não conhecia) e até tenho treinado para dizer o nome dele, que não é fácil de pronunciar. Levo vários outros para ler na ditosa pátria minha desamada.
Os cariocas, além das características já assinaladas, são uns sedutores: não há distinção de género neste particular.
"Me sinto até remoçando" e creio que, se pudesse continuar por cá, acabaria cantando "sem mais nem por quê".

02 Julho 2008

Aprendizagens

Muito se aprende, mesmo quando já se está fora de época. Questão de querer.
Entre outras — e mais interessantes — coisas, estou a aprender a usar a internet, paga ao minuto, em locais avulsos e com computadores extraordinários (qualquer um que não seja dos meus como tal se me afigura).
Num buraquinho, rodeada de pessoas improváveis, cá estou; só por uns minutinhos, que o Rio de Janeiro continua lindo e é uma pena perder tempo em local como este.
Confirmo, embora não tenha amostragem para isso, que os gaúchos (ou as pessoas com quem contactei em Porto Alegre) são as mais educadas que alguma vez conheci, tanto que parece que já nasceram assim e não que o tenham aprendido.
Os cariocas continuam muito simpáticos, gentis, solidários; hoje, numa mudança de alojamento, saía de um táxi com um caixote de cartão enorme, onde tinha metido tudo quanto trazia na mala (e ainda caberia eu) — que esta foi para consertar depois de ma terem estragado num voo —, quando se aproximou um homem que se ofereceu para me ajudar a deslocar o enorme objecto; aceitei, já porque precisava realmente de ajuda, já porque fiquei convencida de que pretenderia ganhar alguma coisa com a tarefa; qual quê?: nada queria; era só simpatia e disponiblidade.

HREF="Ma plus belle histoire d'amour.mp3"